ago 142012
 

Continuamos nosso ensaio de História da Igreja escrita pelo Pe. José Glavan, EP.

Jesus perdoa a incredulidade de São Tomé e a negação de São Pedro, exemplos do perdão de Cristo

Jesus ressuscitado perdoa a incredulidade de São Tomé e a negação de São Pedro, exemplos do perdão de Cristo Redentor

Outra grande perturbação sacudiu a África cristã no incício do século IV. Sob a perseguição de Diocleciano (244-311) as comunidades africanas não foram as que deram maior exemplo de heroísmo. Ocorreu com freqüência que livros sagrados e vasos litúrgicos eram entregues aos pagãos, como estes o exigiam, sob ameaça de torturas ou morte. Tal gesto era considerado sinal da apostasia e negação da fé.

Passado o perigo, muitos oportunistas procuravam se eximir das culpas lançando sobre outros, a acusação de apóstatas e traidores. Deste modo formou-se um partido de radicais e violentos que se punham a condenar a atitude compassiva de muitos bispos. As pessoas mais visadas foram o primaz de Cartago Mensúrio e seu colega Segundo, bispo da Numídia, acusados de condescendência para com os apóstatas.

A Mensúrio, morto em 311, sucedeu seu íntimo colaborador, Ceciliano, logo acusado de cumplicidade com seu antecessor, atraindo assim o ódio do partido dos  rigoristas. 

Disso aproveitou-se um homem extremamente ambicioso, inteligente e hábil manipulador político, natural da Numídia, chamado Donato. De início manejava, por trás, os revoltosos até colocar-se, ele próprio, a frente do cisma.

Cisma sim porque até então era apenas uma ruptura com a autoridade e a disciplina da Igreja na África. Mas Donato tinha outras pretensões pois bem maiores eram suas ambições. Desejava ele constituir uma Igreja africana independente, tendo a ele, naturalmente, como fundador. Percebendo a vacuidade do cisma — que se alimentava  unicamente de calúnias e intrigas —  excogitou dar-lhe bases doutrinárias, e assim firmar definitivamente o seu partido.

Como o ponto de partida do cisma tinha sido intransigência para com os lapsi, Donato revolveu criar, a esse propósito, uma nova teologia, afirmando que a Igreja é constituída unicamente pelos justos, com a exclusão dos pecadores. Sustentava ainda que os pecadores, lapsi ou os traditores (traidores), deveriam ser submetidos a novo batismo. Pelo mesmo motivo, negavam a validade dos sacramentos ministrados por sacerdotes considerados pecadores. Negavam assim, frontalmente, todas as maravilhosas lições de misericórdia deixadas Nosso Senhor Jesus Cristo.

Agora não era mais simplesmente cisma, mas também heresia, pois à ruptura com a unidade disciplinar da Igreja somava-se a ruptura doutrinária. E assim, com este cisma-heresia, em plena ascensão, chegamos ao ano 313, em que Constantino promulga o Edito de Milão dando liberdade à Igreja.

Os hereges, astutamente, enviam petição à Constantinopla solicitando a intervenção do imperador. Cristão recentemente convertido, Constantino, não se sentindo em condições de dirimir questões doutrinárias, sem desconfiar o quanto exacerbaria os donatistas, toma a única medida sensata nesta matéria: entrega a questão nas mãos do papa Melcíades.

Reuniu-se então um concílio em Roma, em 2 de outubro de 313, ao qual tomaram parte também bispos africanos partidários de Donato. As razões apresentadas pelos hereges foram logo e facilmente desmontadas e, por unanimidade, Ceciliano foi confirmado em sua sede primacial. Um novo concílio foi reunido em Arles, no ano seguinte, e nele expressamente condenada a prática do “rebatismo”. Roma assim havia se pronunciado, mas os hereges não se submeteram. Donato e seus partidários continuaram a agitar a África cristã.

Mas a polêmica donatista não se encerra nesse episódio.

(Continua num próximo post)

jun 222012
 
Imagem representando os cristãos dos primeiros tempos pertencente à Pinacoteca Vaticana

Imagem representando cristãos dos primeiros tempos da Igreja, Pinacoteca Vaticana

No estudo da História da Igreja é comum ouvir-se falar em em antipapas. A eleição de papas suscitou por vezes oposições movidas por divergências políticas ou ambições pessoais. Alguns descontentes acabavam por eleger um concorrente ao Papa. Houve época em que havia simultaneamente três “papas”, dos quais apenas um era legítimo.

Alguns historiadores costumam dizer sem precisão que o primeiro dos antipapas foi Santo Hipólito de Roma. Para entermos esse particular é necessário recordar que os primeiros cristãos tinham viva consciência de que deveriam dar o testemunho de uma vida pura. Esta consciência se manifestou por vezes de maneira extremamente rigorosa, como já dissemos acima, em alguns momentos da História. Para se ter ideia dessa exigência de pureza, estima-se que até o século VI só era concedida uma vez na vida o sacramento da Reconciliação. Os bispos julgavam que quem precisasse de mais de uma penitencia sacramental, não estava disposto a recebê-la. Tal pecador era confiado à misericórdia de Deus. Em vista disso, muitos catecúmenos adiavam o batismo, por vezes até à hora da morte, para que pudessem receber a absolvição dos pecados ao menos antes de morrer.

 Tertuliano (160-220) parece ter sido o primeiro a falar dos pecados irremissíveis, que seriam a apostasia, o adultério e o homicídio. No entanto, o papa Calixto I (217-220) concedia a reconciliação a todo pecador que fizesse a devida penitência. Esta praxe foi confirmada pelos sínodos de Roma e de Cartago que ocorreram na época do Papa Cornélio (251-253).

No entanto, contra este costume mais benévolo pautado nas recomendações do Divino Mestre, levantou-se o presbítero Novaciano, que acabou gerando um cisma na Igreja ao encabeçar uma facção de caráter rigorista. Novaciano negava a reconciliação aos apóstatas mesmo em perigo de morte; estendeu esta severidade aos dois outros pecados ditos capitais na época (homicídio e adultério). Queria constituir uma Igreja de puros e santos. Por isso rebatizava os católicos que entravam em suas fileiras.

A Igreja é assistida pela divina Sabedoria que supera e transcende os cálculos humanos e critérios de juízo pessoais. Não raras vezes ao longo da História ela se deparou com pessoas que, com base em seus próprios critérios de análise e juízo fundados em interpretação pessoal das Sagradas Escrituras, quiseram impor-lhe determinados modos de pensar e agir, tanto tendente ao rigorismo como ao laxismo.

Santo Hipólito de Roma parece ter assumido uma posição extremamente rigorista a respeito da Justiça de Deus aproximando-se à corrente novaciana, de tal forma que passou a censurar o papa São Zeferino pela indulgência para com os lapsi (os que diante das torturas acabavam por renegar a fé). Julgava que o Papa deveria negar o perdão a estes quando voltavam arrependidos, e não readmitir na Igreja os apóstatas, que por medo das torturas e da morte, tinham desertado do cristianismo.

Santo Hipólito, Padre da Igreja, sábio e zeloso defensor da fé, depois de contrariar a política de São Zeferino, ergueu-se  contra o papa Calixto censurando-lhe o que imaginava ser frouxidão no combate à heresia de Sabélio. Nesta posição acaba por romper com ele, arvorando-se numa espécie de antipapa. Continuou opondo-se à política de Santo Urbano I e de São Ponciano, sucessores de Calixto, quando, juntamente com São Ponciano foi preso exilado e submetido a trabalhos forçados no governo do imperador Maximiniano.

Nesta ocasião presenciou o nobre gesto do Papa renunciando ao pontificado a fim de permitir a eleição de outro Pontífice e evitar que a Igreja ficasse desgovernada. Este foi o fato do qual parece ter-se servido a divina Graça para tocar o coração de Hipólito. Tornou-se, a partir de então, um ardoroso devoto do Papa e quando seus partidários vinham a ele para pedir opinião neste ou naquele ponto, costumava dizer simplesmente: sigam o papa, é o único guia! Veio a morrer mártir no ano de 235. É impropriamente apresentado como o primeiro antipapa. De fato não o foi.

Alguns anos mais tarde, em 250, Novaciano entendeu exigir da Igreja novos rigores contra os lapsi (lapsos). Formou um partido que se opôs tenazmente a eleição do Papa Cornélio (251-252), por causa da sua posição indulgente. Apesar desta oposição Cornélio foi aclamado Papa, o que despertou revolta em Novaciano. Fez-se ordenar bispo por três bispos partidários seus, e organizou um partido de oposição a Cornélio.

Estava constituído um Cisma (divisão) na Igreja, com  Novaciano, figurando como o segundo, mas este sim, verdadeiro antipapa. Novaciano agitou a Igreja promovendo perturbações contra o Papa Marcelino (290-304) e contra os breves pontificados de Marcelo (307-309) e Eusébio (309 -310). Somente a energia aliada à diplomacia do Papa  Melcíades (311- 314) pode conter o movimento.

Para entender

Qual é a diferença entre heresia e cisma?

Por heresia entende-se a negação de alguma verdade de fé formalmente definida pela Igreja como tal. Assim, por exemplo, os arianos eram hereges porque negavam a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por cisma entende-se uma ruptura com a Unidade da Santa Igreja em matéria de disciplina eclesiástica, ou seja, nega-se reconhecer autoridade e prestar obediência aos legítimos pastores.

Maio 232012
 

O Veni  Sancte Spiritus, que se traduz como “Vem, ó Santo Espírito”, é a sequência da Missa Solene de Pentecostes. Essa belíssima melodia foi composta no século nono, por um sábio monge beneditino, mais tarde Arcebispo de Mainz na Alemanha, chamado Rabano Mauro (750-856 d. C.) Além de ter escrito tratados sobre educação, gramática e comentário bíblicos, Rabano Mauro compôs a sequência da Missa de Pentecostes. No Martyrologium Romanum se celebra a festa de São Rabano Mauro no dia 4 de fevereiro. O Veni Sancte Spiritus também é entoado pelos Cardeais na procissão de entrada do Conclave, momento no qual fazem o escrutínio para a eleição do novo pontífice. Delicie-se com essa lindíssima peça da literatura e da arte medieval cantada na Solenidade de Pentecostes.

Veni Sancte Spiritus (Gregoriano), por Rabano Mauro

Para ouvir, clique aqui.

Veni Sancte Spiritus Gregoriano Partitura

Letra em latim e tradução do Veni Sáncte Spíritus (Gregoriano)
Com acentos para facilitar a pronúncia

Letra em latim

Tradução portuguesa

Veni Sáncte Spíritus,

Et emitte caélitus

Lúcis túae rádium.

Vinde, Espírito Santo,

e enviai do céu

um raio de Vossa luz.

Véni páter páuperum,

Véni dátor múnerum,

Véni lúmen córdium.

Vinde, pai dos pobres,

vinde dispensador dos dons,

vinde luz dos corações.

Consolátor óptime,

Dúlcis hóspes ánimae,

Dúlce refrigérium.

Consolador por excelência,

hóspede da alma,

nosso doce refrigério.

In labóre réquies,

In aéstu tempéries,

In flétu solátium.

No trabalho, sois repouso;

no ardor, sois calma;

no pranto, consolo.

O lux beatíssima,

Réple córdis íntima

Tuorum fidélium.

O luz beatíssima,

penetrai até o fundo do coração

dos que vos são fiéis.

Sine túo númine,

Nihil est in hómine,

Nihil est innóxium.

Sem vossa graça,

nada há no homem,

nada que não lhe seja nocivo.

Láva quod est sórdidum,

Ríga quod est áridum,

Sána quod est sáucium.

Lavai o que é impuro,

fecundai o que é estéril,

ao que está ferido curai.

Flécte quod est rígidum,

Fóve quod est frígidum,

Rége quod est dévium.

Dobrai o rígido,

aquecei o que é frio,

e o que se extraviou, guiai.

Da túis fidélibus,

In te confidéntibus,

Sácrum septenárium.

Dai aos que vos são fiéis

e em vós confiam

os sete dons sagrados.

Da virtútis méritum,

Da salútis éxitum,

Da perénne gáudium.

Ámen.

Dai-lhes o mérito da virtude,

a salvação no termo da vida,

a eterna felicidade.

Amém.

 

Para ter acesso a mais músicas e partituras

Arautos do Evangelho publicam coletânea de Cânticos Gregorianos em latim com tradução portuguesa

 Musica et Lingua latina

abr 092012
 

Pe. José Arnóbio Glavan, EP

Bourges - Dscn0692-Bourges - Paulo MikioNos séculos que se seguiram ao Edito de Milão a Igreja encontrou-se numa delicada situação. Se de um lado podia mover-se em liberdade e à luz do dia, de outro teve que enfrentar a rápida e intensa propagação das heresias, que gozavam, também elas, da mesma situação de liberdade. Assim antigas doutrinas heterodoxas (falsas) sobre as quais a Igreja tinha triunfado em tempos de perseguição, renasciam em aspectos novos enquanto outras heresias novas surgiam. Entre os  séculos III e VII viu-se ela sacudida por grandes embates doutrinários nos quais, entretanto, a ortodoxia ia se afirmando com cada vez maior clareza e precisão.

Durante as antigas perseguições a Igreja de Deus enfrentou gloriosamente inimigos internos e externos. Mas vencidos estes últimos, concentrou-se ela nos primeiros: as heresias. Uma outra ordem de realidades, ainda, se somava a estas: se com Constantino a Igreja alcançara a liberdade, com Teodósio I o Grande tornou-se religião oficial do Império Romano. Com efeito, este imperador proibiu o culto pagão em todo o Império,  sem entretanto recorrer à força para reprimir seus adeptos, mas negando-lhes, simplesmente, cargos e regalias oficiais, transferindo-as para os cristãos. Os imperadores que se seguiram foram, aos poucos, fazendo recuar o culto pagão, o que aliás provocava contínuos protestos de seus seguidores, ainda numerosos na vida pública romana, sobretudo no Senado. Graciano (375-383) no Ocidente, por exemplo,  foi o primeiro a recusar o título de Pontifex Maximus (supremo pontífice), que os imperadores pagãos ostentavam, e que Constantino e seus sucessores, por política, conservaram.

Se tal situação fazia dos imperadores romanos, fiéis súditos da Santa Igreja, fazia-os também seus naturais protetores. E por isso, em muitas situações entenderam eles poder exercer sobre a Esposa de Cristo uma descabida tutela. Vê-se então imperadores —  sobretudo os do Oriente — intervirem, com pretensões de autoridade, em debates teológicos e mesmo disciplinares da Igreja. Mas também usarem do poder secular para reprimir os hereges e, não raras vezes, os ortodoxos. Constantino I (306-337), e Teodósio I (379-395) favoreceram a ortodoxia mas já seus sucessores Constâncio (337-361) e Valente(364-378), protegeram o Arianismo, destituindo e exilando Santo Atanásio, o grande herói da luta anti-ariana. Teodósio II, por sua vez, protegeu os hereges monofisitas.

Os sete primeiros concílios foram convocados pelos imperadores. Constantino convocou, em 325, o primeiro concílio ecumênico, o de Nicéia, e Teodósio II em 431 convocou o  Concílio de Éfeso, a fim de se pronunciar sobre a heresia nestoriana. O Imperador hesitou muito entre São Cirilo, representante do Papa e grande defensor da ortodoxia, e os bispos partidários de Nestório, mas acabou por apoiar aquele e exilar este.

O mesmo imperador, entretanto, dezoito anos mais tarde, premido pelo Patriarca Dióscoro de Alexandria, partidário do heresiarca Eutiques, convoca um novo Concílio Ecumênico para Éfeso. Concede, a presidência a Dióscoro, que recusa cedê-la aos representantes do Papa quando estes chegam, e ainda ousa impedir a leitura da carta de São Leão Magno que expunha a boa doutrina em face do Monofisismo de Eutiques. Este, portanto, não foi um Concílio mas sim um conciliábulo, e ficou conhecido na história com o nome de Latrocínio de Éfeso, porque reuniu os bispos sem o consentimento e a aprovação do Papa.

abr 092012
 

Pe. Arnóbio José Glavan, EP

De diversos modos, hoje em dia, se divide e classifica a História da Humanidade. Há inclusive quem adote uma divisão própria para a História da Igreja, diversa da divisão adotada para a História Universal. Com efeito, o fato de se adotar esta dupla classificação pode levar a se considerar a História da Igreja como apenas correndo paralela à História da Humanidade e não intimamente unida a ela como o fermento na massa. De fato a Igreja é uma instituição com a missão de entrar na História, e agir nela operando a Salvação. Neste sentido ela só pode ser compreendida em toda a sua dimensão quando vista como um fator de transformação da História rumo ao Reino escatológico de Deus. A História da Salvação é, pois, uma História dentro da História.

Deste modo preferimos adotar para a História da Igreja a mesma divisão da História Universal, e fiquemos com a tradicional, que a classifica em quatro idades: Antiga, Média, Moderna e Contemporânea.

Na antiga distinguimos a antiguidade clássica, que vai das origens até o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo; e a cristã que se estende, segundo a convenção, até queda do império romano do Ocidente, em 476.

Igreja construída na chamada "Idade das trevas", Sainte Chapelle, Paris.

Igreja construída na chamada "Idade das trevas", Sainte Chapelle, Paris.

Temos depois a chamada Idade Média e a convenção estabelece para seu início a  queda do Império Romano do Ocidente e para fim a queda do Império do Oriente, em 1453. Como se vê, à Idade Média se atribui um período de cerca de mil  anos de duração. A designação de “Média” — época intermediária entre a Antiga e a Moderna —  vem de um descabido preconceito que modernamente dominou certos defensores do Humanismo e da Renascença. Votavam estes uma incondicional admiração pela antiguidade clássica: suas filosofias, artes, e até mesmo para efeitos literários e artísticos, seus deuses. Tudo com evidente intuito de desmerecer e menosprezar a obra santificadora e civilizadora da Igreja.

Chegou-se mesmo a apelidar a Idade Média de “noite dos mil anos“, ou “período das Trevas“, mas com o advento das pesquisas históricas e dos estudos especializados tais concepções acabaram por cair no mais completo ridículo e ficaram como testemunhas de estreiteza de horizontes, de obscuridade de espírito — de “noite” nas mentes — de certas correntes de pensamento modernas.

Segue-se a Idade dita Moderna, à qual nos referimos acima, e que se estenderia do fim da Idade Média até a data simbólica da deflagração da Revolução Francesa: 1789. Vem por fim a Idade Contemporânea que se estende até nossos dias.

jan 172012
 

Divisão da História

Ensaio do Pe. José Arnóbio Glavan, EP

De diversos modos, hoje em dia, se divide e classifica a História da Humanidade. Há inclusive quem adote uma divisão própria para a História da Igreja, diversa da divisão adotada para a História Universal, o que não nos parece procedimento adequado. Com efeito, o fato de se adotar esta dupla classificação pode levar a se considerar a História da Igreja como apenas correndo paralela à História da Humanidade e não intimamente unida a ela como o fermento na massa. De fato a Igreja é uma instituição com a missão de entrar na História, e agir nela operando a Salvação. Neste sentido ela só pode ser compreendida em toda a sua dimensão quando vista como um fator de transformação da História rumo ao Reino escatológico de Deus. A História da Salvação é, pois, uma História dentro da História.

Deste modo preferimos adotar para a História da Igreja a mesma divisão da História Universal, e fiquemos com a tradicional, que a classifica em quatro idades: Antiga, Média, Moderna e Contemporânea.

Na antiga distinguimos a antiguidade clássica, que vai das origens até o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo; e a cristã que se estende, segundo a convenção, até queda do império romano do Ocidente, em 476.

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Catedral de Colônia, Alemanha, um dos milhares de exemplos de desenvolvimento humano ocorrido durante a Idade Média

Temos depois a chamada Idade Média e a convenção estabelece para seu início a  queda do Império Romano do Ocidente e para fim a queda do Império do Oriente, em 1453. Como se vê, à Idade Média se atribui um período de cerca de mil  anos de duração. A designação de “Média” — época intermediária entre a Antiga e a Moderna —  vem de um descabido preconceito que modernamente dominou certos defensores do Humanismo e da Renascença que paulatinamente vai sendo superado por estudiosos mais criteriosos. Votavam estes uma incondicional admiração pela antiguidade clássica: suas filosofias, artes, e até mesmo para efeitos literários e artísticos, seus deuses. Tudo com evidente intuito de desmerecer e menosprezar a obra santificadora e civilizadora da Igreja.

Chegou-se mesmo a apelidar a Idade Média de “noite dos mil anos“, ou “período das Trevas“, mas com o advento das pesquisas históricas e dos estudos especializados (1) tais concepções acabaram por cair no mais completo ridículo e ficaram como testemunhas de estreiteza de horizontes, de obscuridade de espírito — de “noite” nas mentes — de certas correntes de pensamento modernas.

Segue-se a Idade dita Moderna, à qual nos referimos acima, e que se estenderia do fim da Idade Média até a data simbólica da deflagração da Revolução Francesa: 1789. Vem por fim a Idade Contemporânea que se estende até nossos dias.

(1) Escritores e especialistas contemporâneos de grande renome, como Georges Duby, Régine Pernoud,  Émile Mâle, Georges Bordonove e muitos outros, bem demonstraram que Idade Média foi um período de intensa elaboração intelectual, artística e até mesmo científica, evidenciando assim o disparate sectário daqueles preconceitos. Sustentá-los, hoje em dia, seria manifestar inconcebível ignorância e obscurantismo. Aos poucos vamos vencendo preconceitos…

nov 212011
 

Pe. José Arnóbio Glavan, EP

As Catacumbas

Ao longo dos dois séculos e meio em que a Igreja sofreu sucessivas perseguições sangrentas, sentiu ela a necessidade de se esconder — sobretudo em Roma onde era mais diretamente visada — para poder continuar sua vida: celebrar os Santos Mistérios, conservar sua unidade, sepultar seus mortos —  especialmente os mártires cujos corpos se lograva resgatar — e acolher os novos cristãos.

aguia romana_aquila_eagle_arend_Adler_Aigle_romain_Romanische_RomaHabitualmente o fazia nas famosas catacumbas, locais subterrâneos  usados como cemitérios pelos antigos romanos, e que consistiam em amplas galerias com vários andares, interligados por verdadeiros labirintos, fato que vinha dificultar as perseguições. Entre elas destacam-se a famosa catacumba de São Calixto,  e as de Santa Priscila e de  Santa Domitila. As catacumbas são hoje em dia — juntamente com o Circo Máximo onde os cristãos eram martirizados — , locais de vivo interesse dos peregrinos que vão a Roma, e permanecem testemunhas eloquentes daqueles atribulados, heróicos e gloriosos tempos.

A unidade do Império sob Constantino

Em nossa trajetória histórica chegamos aos tempos de Diocleciano e de Constantino. O primeiro, como vimos, realizou uma reforma política e administrativa no Império, estabelecendo quatro imperadores: dois Augustos e dois Césares. Entretanto tal disposição não perdurou.

Com Constantino, seu sucessor, depois de muitos entrechoques políticos e militares, o Império viu-se governado por dois imperadores simplesmente: Constantino no Ocidente e Licínio no Oriente. Este último, entretanto, assumiu uma conduta contrária a de Constantino, hostilizando os cristãos, e ambos entraram em guerra. Constantino saiu vitorioso deste embate e tornou-se o único imperador: Totius orbis Imperator (Imperador de toda a Terra), foi o título que então levou.

Estava assim o Império Romano novamente unificado, e uma das principais medidas de Constantino foi, para se proteger das turbulências políticas de Roma,  transferir a capital do Império para Bizanço cujo nome mudou para Constantinopla, que em grego significa, cidade de Constantino.

Tal unidade porém também não se manteve. A necessidade da divisão se impunha pela vastidão do território sob poder dos Césares, e veio ela novamente a se restabelecer após o governo de Teodósio, permanecendo, como veremos a seguir, até a queda do Império Romano do Ocidente. O do Oriente, porém, perdurou por mais mil anos aproximadamente, vindo a cair somente com a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453.

O batismo de Constantino

Imperador Constantino e Santa Helena sua mãe, França

Após a famosa batalha da Ponte Mílvia, Constantino parece ter-se mantido sob influência da Igreja mas, surpreendentemente, não se fez batizar. Recebeu o santo batismo somente na hora da morte. O fato, que causa perplexidade e estranheza aos historiadores, se explica  pelo seguinte motivo: naqueles primeiros tempos da vida da Igreja, em que a exegese (ciência da interpretação da Sagrada Escritura) e a teologia (ciência da doutrina cristã), estavam apenas começando — impulsionadas sábia e corajosamente pelos Padres, e orientadas pelo Magistério da Igreja assistido pelo Espírito Santo — havia aspectos desta doutrina que ainda não estavam inteiramente claros. Um deles era justamente a respeito do sacramento da Penitência e das condições e amplitude do perdão concedido por Deus aos pecados graves atuais, após o batismo. Com efeito, era concepção corrente nesta época que os pecados graves cometidos após o batismo muito dificilmente seriam perdoados. E quando a Igreja concedia o perdão o fazia somente após anos de penitência.

Havia inclusive quem entendesse que tais pecados não tinham perdão a não ser, em certas condições, na hora da morte. Pelo contrário a convicção de que o batismo, recebido com as devidas disposições, apaga completamente todos os pecados, era uma verdade de fé compreendida e aceita em todos os tempos.

No quadro dessas concepções, pareceu mais prudente a Constantino — que tinha muito medo de recair em pecado e assim pôr em risco sua eterna salvação — postergar seu batismo para o fim de sua vida.

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Artigos precedentes e continuação do curso pelo link: Curso Básico de História da Igreja

nov 012011
 

Acqua alle funi!

Nesse momento de suprema aflição, um dos assistentes, desafiando temerariamente a pena capital, pôs-se a gritar com possante voz: “Água nas cordas!”. Era o único meio de impedir o desastre iminente.
Marcos Enoc Silva Antonio

Para ler em latim, clique aqui (latine)

Ao fiel peregrino ou ao curioso turista, impossível é passar despercebida a presença, bem no centro da Praça de São Pedro, do esguio obelisco encimado por uma cruz de bronze na qual se guarda, como a abençoar o mundo, um fragmento do Santo Lenho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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Modelado há cerca de 4 milênios em um só bloco de pedra vermelha de Assuão, foi ele transportado de Alexandria para Roma no ano 37 por ordem do imperador Calígula. Estava destinado a ornar a spina ou eixo central do Circo do Vaticano, cuja construção, começada por esse imperador, seria finalizada por Nero.

Foi nesse estádio hoje desaparecido, situado na lateral esquerda da atual Basílica Vaticana, que numerosos cristãos, entre os quais São Pedro, receberam a palma do martírio, tendo o ancestral monólito por muda testemunha dos seus suplícios.

Passaram-se os anos e o circo foi abandonado e transformado em cemitério. O obelisco, porém, manteve-se inamovível, indicando o lugar onde o primeiro Papa oferecera sua vida por Cristo. E assim permaneceu por quinze séculos, até que, em 1586, Sisto V decidiu transladá-lo para sua atual posição, frente à fachada principal da Basílica de São Pedro. Tarefa nada fácil, pois embora ambos locais distem apenas algumas centenas de metros, as proporções do monólito são monumentais: mede quase 25 metros de comprimento, descontados a base e a cruz, e ultrapassa as 350 toneladas de peso.

O planejamento e execução da colossal empresa ficaram a cargo do arquiteto Domenico Fontana, quem após gastar alguns meses fazendo cálculos e testes, fabricando instrumentos e maquinários, deu início às operações com ajuda de 900 homens, 140 cavalos, uma infinidade de roldanas e centenas de metros de corda.

No dia determinado para reerguer na Praça de São Pedro o grande bloco de pedra, 10 de setembro de 1586, os habitantes de Roma acorreram em massa para presenciar essa façanha de engenharia. Visando evitar vozerios e agitações prejudiciais às delicadas manobras, as autoridades impuseram a todos, espectadores e obreiros, a proibição de pronunciar qualquer palavra… sob pena de morte!

Domenico Fontana, o único autorizado a falar, deu ordem para pôr em ação a complexa aparelhagem de andaimes, cordas e roldanas. Ouviam-se apenas os gemidos de esforço dos trabalhadores, o relinchar dos cavalos, o tamborilar de suas patas sobre o solo e o ranger das cordas esticadas.

Vagarosa e solenemente, ia-se erguendo o obelisco… Mas, a certa altura, uma preocupante fumaça começou a desprender-se das cordas de cânhamo, aquecidas pelo esforço a que estavam sendo submetidas. Algumas já estavam prestes a se romper, tornando iminente o desastre. Embora todos sentissem o perigo, ninguém pronunciava palavra, temendo a sentença de morte.

Nesse momento de suprema aflição, um dos assistentes, o Capitão Benedetto Bresca, desafiando temerariamente a pena capital, pôs-se a gritar com possante voz: “Acqua alle funi! – Água nas cordas!”. Marinheiro experimentado, sabia que o cânhamo se enrijece e contrai ao ser molhado, e esse era o único meio de impedir a queda do monólito.

Enquanto a guarda prendia o Capitão Bresca, Domenico Fontana bradava ordens para jogar imediatamente água nas cordas, que logo recuperaram sua resistência. E o obelisco, para alegria dos romanos, endireitou-se sobre sua base coroando com êxito, os meses de planejamento e esforços do arquiteto.

No meio da exultação geral, o Capitão Bresca compareceu diante do Papa, não para receber a sentença de morte, mas sim profundas manifestações de agradecimento. Com efeito, Sisto V, já informado do ocorrido, fez questão de recompensá-lo por sua ousadia e pela oportunidade de sua advertência.

Em prêmio à nobre e intrépida atitude deu-lhe o direito de hastear em seu navio a bandeira pontifícia. Além disso, concedeu à sua família e à sua cidade natal, Bordighera, o privilégio de fornecer, de modo exclusivo, as palmas para a celebração do Domingo de Ramos na Basílica do Vaticano, tradição que, 425 anos depois, ainda se conserva.

(Marcos Enoc Silva Antonio. Revista Arautos do Evangelho. N. 99, Out. 2011, p.50)

Obelisco da Praça de São Pedro, Vaticano

Obelisco da Praça de São Pedro, Vaticano

nov 012011
 

Aquam funibus!

Para ler em português (lusitane)

Legibus, quamvis iustae sint et necessariae, gravissimo casu interdum oboedire non possumus.

Anno 1586º, Sixtus eius nomine V Pontifex Maximus, magnum obeliscum, qui Caligula anno 37º ex Alexandria, ut spina in Gaii et Neronis Circo staret, importare iusserat, apud Sanctum Petrum, qui non longe ab eo Circo aberat, in platea videri voluit; ad hanc rem conficiendam Domenico Fontanae architecto mandatum dedit; obeliscum vero in altitudinem metra 25 et ponderis chiliogrammorum milia 350 erat, quapropter Fontana 900 operariis, 140 equis longissimisque funibus usus est atque ex ligneis virgis magnum tabulatum struxit, eo consilio ut obeliscus levari posset.Olebisconapracadesaopedroafrescodabibliotecavaticanapiazzadisantpietroromavaticanocittaciudaddelvaticanovaticancity

Die autem 10 mensis Decembris Romani incolae ad Sanctum Petrum convenerunt ut magnum opus fieri spectarent; Sixtus autem Papa, suadente Fontana, morte minatus est cuicumque verbum diceret sive spectatori sive operario, nam nisi omnes absolute silerent, architecti voces iussionesque in re valde periculosa non audirentur. Domenicus Fontana qui unice loquebatur operae initium dedit,  compaginesque, machinae, phalangae, rotae, operarum equorumque robore per funes movere coeperunt; audiebantur vero hinnitus et laborantium gemitus et rotarum funiumque tensarum fremitus.

In Fontanae administris erat capitanus Iohannes Bresca, qui cum fumum ex funibus oriri videretur, nam contentione se calefiebant et paene incendebantur, magna voce clamavit “aquam funibus” (“acqua alle funi”); sciebat enim, quod fuerat nauta, cannabinos funes aquarum contractione firmari. Dum Fontana quoque pro funibus aquam operariis imperat et custodes Brescae manum iniciunt ut capitis ob delictum puniatur, funes compaginesque tandem restiterunt operamque omnes feliciter perfectam viderunt. Sixtus V non solum strenuo capitano pepercit sed etiam privilegium dedit ut omni die Domenica Ramorum ipse et concives eius (qui Bordigherae erat natus) palmas apud Sanctum Petrum unice venditarent, quae consuetudo ad nostros dies adhuc servatur.

Fons: fasciculi menstrui quibus titulus (Hisp.) Heraldos del Evangelio, Nº99, Oct. 2011, pág.50, auctore Marcos Enoc Silva Antonio

Scripsit Paulus Kangiser

out 282011
 

No transcorrer dos seis primeiros séculos muitas outras heresias investiram contra a Santa Igreja, ora negando verdades sobre a Santíssima Trindade — como o Monarquianismo que negavam a distinção de pessoas em Deus. Ora  sobre Jesus Cristo, recusando, por vezes atribui-lhe verdadeira natureza divina— como o arianismo — outras vezes lhe negando a condição de verdadeiro homem — como o Monofisismo e o Monotelismo, que negavam, respectivamente duas naturezas e duas vontades em Jesus Cristo. Foram as chamadas heresias trinitárias e as segundas cristológicas. Não faltaram também as heresias que visavam o Divino Espírito Santo e a doutrina da graça como por exemplo o Pelagianismo. Entretanto, de todas elas a Igreja saiu gloriosamente vencedora, e nesta vitória foi assistida pela santidade, ortodoxia, cultura sabedoria e notáveis qualidades de escritores e polemistas, dos Santos Padres. A alguns destes — Santo Atanásio, São Jerônimo, Santo Agostinho entre outros — que se destacaram por sua excepcional ciência aliada à piedade. Entre os mais notáveis Padres, a Tradição coloca São Basílio, São Gregório de Nazianzo, São João Crisóstomo e Santo Atanásio, no que diz respeito ao Oriente, e Santo Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho e São Gregório I, o Grande, quanto ao Ocidente.

Detalhe da Saint Chapelle, Paris

Detalhe da Saint Chapelle, Paris

No período patrístico que estamos considerando, a Igreja foi também enriquecida pela realização de diversos sínodos e concílios, tanto regionais quanto universais, e a estes últimos se dá o nome de “ecumênicos”. Era, muitas vezes, por ocasião desses encontros, principalmente os que se realizavam sob a a autoridade do Papa —  condição para serem considerados ecumênicos, pois o papa é o Pastor universal — que a Igreja definia e formulava verdades de fé contidas na Revelação, e as propunha como tais para todos os fiéis: os dogmas.

Muitos sínodos e concílios se realizaram neste período, por vezes até mais de um por ano, o que torna muito laboriosa a enumeração de todos. Limitemo-nos aos ecumênicos: Nicéia (355) no qual foi definido que Jesus Cristo é verdadeiro Deus consubstancial (homousios) com o Pai; o  1º de Constantinopla (381) que como o anterior estabeleceu as verdades de fé que constam do Símbolo Niceno-Constantinopolitano (o Creio grande); Éfeso (431) que definiu, entre outras coisas, a maternidade divina de Nossa Senhora: Maria é Teotókos (Mãe de Deus);  Calcedônia (451) que condenou o Monofisismo de Eutiques, e estabeleceu o Cânon das Sagradas Escrituras (lista completa dos livros que constituem a Bíblia) e, por fim, o 2º de Constantinopla (553) que, entre outras coisas, reafirmou as decisões de Caledônia.

Nesta rápida passagem pela história dos Padres da Igreja e de suas lutas contra as heresias, chegamos ao fim do sexto século e  com ele o que se convencionou chamar em sentido estrito, o período dos Santos Padres. Admite-se, num sentido amplo, Santos Padres até o fim do século VIII. Também com esta historia encerramos nosso primeiro capítulo, para retomar no próximo a caminhada da Igreja onde a deixamos: ornada com a glória dos mártires e prestes a enfrentar os desafios da liberdade.